A Educação e a República: um compromisso com o futuro

A implantação da República trouxe consigo uma determinada conceptualização de sociedade, diferente daquela que Portugal conhecera até então. E esta talvez tenha sido uma das suas maiores transformações. Sustentado numa corrente positivista e eclética, o Projeto Educativo à época, em Portugal, assentava na ciência, no progresso da humanidade e na convicção de que a Educação poderia constituir um verdadeiro instrumento de regeneração social.

Mas o importante não será apenas olhar para o “velho Portugal”. Será, sobretudo, compreender aquilo que muitos então designaram como o “Portugal novo” e entender se este novo arquétipo de país conseguiu acompanhar o progresso e a evolução dos tempos. Um ideal que, à semelhança daquele que acompanhou a Revolução Francesa, assentava também, segundo expressão de Mona Ozouf1 (1988, p. 829): “la promesse quasi religieuse d’un homme neuf”. Uma expressão que procura não só fazer uma menção à alteração das estruturas políticas, mas também abordar a própria alteração da natureza humana, na medida em que a República traz um cidadão inteiramente novo e moldado pelos valores republicanos.

Mais de um século depois, importa, por isso, não olhar para a República apenas como um acontecimento histórico, mas como um projeto de sociedade em construção e que continua a colocar-nos questões no presente.

Antes de refletirmos sobre os avanços que um dos momentos mais marcantes da nossa História veio permitir, importa compreender o que o conceito de República representa e os valores que lhe estão associados. A Constituição da República Portuguesa estabelece, no n.º 2 do artigo 73.º, que “o Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para […] a participação democrática na vida coletiva”2.

Esta formulação constitucional encerra uma ideia particularmente importante: a Educação não é apenas uma política pública entre muitas outras. É também um dos instrumentos através dos quais a própria democracia se constrói e se concretiza. República e Educação são indissociáveis pela responsabilidade que têm de formar cidadãos capazes de participar na vida coletiva.

É esta convicção que tenho defendido ao longo dos anos: sem uma Educação capaz de formar cidadãos livres, responsáveis, críticos e participativos, dificilmente poderemos falar de uma sociedade verdadeiramente democrática. A justiça social começa, também, no Plano Educacional.

Desde sempre, a Educação assumiu-se como fonte de progresso e de transformação social. Não se trata apenas de uma premissa contemporânea. A própria história do pensamento educativo português demonstra como à escola foi atribuído, em diferentes momentos, um papel central na construção de uma nova ordem social. Em 1911, Graça escrevia: “É a escola o centro donde emanam todas as fontes da felicidade e bem-estar dos povos modernos; o agente fundamental dessa nova religião que se chama o progresso; o cadinho onde se vestem e fundem as sociedades atuais, para se formarem as sociedades novas, as sociedades do futuro” (Graça, 1911, p. 11).

Os tempos dizem-se outros, mas a tese central mantém-se atual: que sociedades estamos a formar através das nossas escolas? E tendo esta a função de democratizar está a escola a criar procedimentos escolares que são verdadeiramente inclusivos?

É precisamente aqui que a reflexão sobre a República encontra a Educação do presente. As profundas transformações sociais, económicas, tecnológicas e políticas das últimas décadas colocaram novos desafios à escola e fizeram crescer a sua responsabilidade no mundo contemporâneo, um mundo cada vez mais politizado. Se, no início do século XX, a escola era entendida como um instrumento de progresso e de construção de uma sociedade nova, hoje é chamada a preparar cidadãos para uma realidade marcada pela diversidade, pela complexidade e pela necessidade de participação ativa na vida coletiva.

Mas será que a escola está, efetivamente, a cumprir este papel?

E será que a ordem política, nacional e internacional, está a criar as condições necessárias para que a Educação cumpra a sua missão de contribuir para sociedades mais justas, livres e prósperas?

A democratização da Educação vai muito além do 25 de Abril e da construção de um espaço comum de acesso à escola. Não se pode reduzir a escola apenas no acesso universal ao Sistema Educativo. É preciso ir mais além. Implica reconhecer a diversidade de percursos, ritmos, características e formas de participação dos alunos e criar condições efetivas para que todos possam aprender, participar e alcançar o seu potencial. Mas para que isso se concretize, devem ser criadas as condições necessárias.

Democratizar a Educação significa, por isso, ir além da igualdade formal de acesso. Significa criar oportunidades reais de participação e de sucesso, reconhecendo a pluralidade que existe dentro de cada escola. Esta constitui um dos primeiros espaços onde a democracia deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma experiência concreta.

O filósofo Padre Manuel Antunes3, em 1979, escrevia: “Para bem e para mal, Portugal é hoje uma sociedade politizada. Só assim poderemos retomar a história do nosso país, só assim será possível a reinvenção de Portugal por Portugal, a recriação de Portugal por Portugal, através da democracia como espaço da liberdade[…] e da soberania popular” (Santos, 200, p.61).

Esta ideia de soberania popular é particularmente relevante quando pensamos na Educação. A República assenta na ideia de pólis, ou seja, que a cidade pertence à comunidade e de que o exercício do poder encontra a sua legitimidade na participação dos cidadãos. À escola cabe, por isso, uma responsabilidade que não pode ser reduzida à transmissão de conteúdos, mas sim a de contribuir para que cada aluno compreenda que tem um lugar na sociedade e que esse lugar implica capacidade de intervenção, responsabilidade e participação.

A República é uma forma de organização política e uma forma de compreender a gestão da “coisa pública”. A democracia, por sua vez, assenta num sistema de poder político cuja legitimidade emana do povo. São conceitos distintos, mas que se intersectam, quando3 Padre Manuel Antunes foi um insigne padre jesuíta, professor universitário e ensaísta português, sendo considerado um dos pensadores e pedagogos mais importantes do século XX em Portugal. Desempenhou um papel crucial no pensamento político e cultural português no período de transição para a democracia, tendo sido também conselheiro do Presidente António Ramalho Eanes.

É neste ponto que, mais de um século depois de 1910, a pergunta regressa: Que Educação queremos para a República que continuamos a construir? Talvez seja esta uma das perguntas mais importantes que podemos colocar neste 5 de Outubro.

Em 1910, acreditava-se que a escola poderia contribuir para formar as sociedades do futuro. Mais de cem anos depois, essa responsabilidade permanece e com um desafio ainda mais acrescido. Por isso, podemos afirmar que a Educação continua a ser um dos maiores compromissos da República com o futuro. E nós, temos de continuar a construir o futuro!


1
Mona Ozouf é uma historiadora e filósofa francesa. Especialista em educação e uma personalidade de referência nos estudos da Revolução Francesa.

2 Assembleia da República. (2005). Constituição da República Portuguesa (7.ª revisão constitucional). Diário da República, 1.ª série-A, n.º 155. https://diariodarepublica.pt/dr/legislacao-consolidada/decreto-aprovacao-constituicao/1976-34520775

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5 Out, 2026

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