Um rio como Património Mundial
Associação dos Amigos do Tejo prepara candidatura transnacional a apresentar à UNESCO

Estudantes, cidadãos e especialistas de várias áreas científicas reuniram-se, no passado dia 25 de
Fevereiro, no Mercado de Santa Clara, em Lisboa, numa conferência destinada a conhecer as potencialidades e vantagens da elevação do Tejo a Património da Humanidade. O encontro foi promovido pela Escola ProfissionalAlmirante Reis (EPAR) e pela
Associação dos Amigos do Tejo. Esta última entidade está a trabalhar com a associação espanhola Tajo Sostenible num projecto
de candidatura transnacional do rio a património mundial, lançado em 2008 e reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Segundo afirmou ao JR o director pedagógico da escola, Joffre Justino, para
já o objectivo passa, sobretudo, por uma “lógica de aprendizagem,estudo e debate”, mas “queremos, numa fase posterior,
criar uma associação juvenil com estudantes das várias escolas dos concelhos da zona ribeirinha, de ambas as margens,
comungando interesses e umespaço comum emtorno do Tejo”, disse, referindo como possibilidades a realização de visitas de estudo, acampamentos e colóquios.

Uma das iniciativas já previstas é uma visita de estudo aCacilhas, Almada, a efectuar por uma das turmas do 11.º ano do curso
Técnico de Recepção daquela escola, após um trabalho prévio de recolha de informação sobre a sustentabilidade ambiental, social e etnográfica do Tejo.“Oobjectivo é perceber as fragilidades, mas também as potencialidades da frente ribeirinha”, explicou, por seu turno, Ana Luísa Marques, professora coordenadora daquele curso, justificando:“O Tejo será, a breve trecho, um dos elementos chave da actividade turística desta região”. Pela mesma altura em que se realizou este colóquio, o movimento
PROTEJO, embora considerando positiva a ideia de uma candidatura do Tejo a PatrimónioMundial da Unesco, alertava que “nenhum dos países envolvidos” está a realizar os esforços para proteger o seu património natural. Paulo Constantino, porta voz do movimento, disse à Agência Lusa que “o sucesso da candidatura depende em muito da capacidade de ambos os países garantirem as
condições para a preservação do Tejo como um rio vivo, do seu enquadramento paisagístico natural e dos seus ecossistemas
naturais, onde se integram as espécies animais, com especial relevo para as piscícolas, como a lampreia de mar”. Nesse contexto, o responsável lembrou a “iminência de várias ameaças ao património natural” do Tejo, desde a política de transvases em Espanha até às barragens de Almourol e Alvito, sendo que “qualquer delas lhe retirará a beleza natural de ser um rio vivo em Portugal e colocará em causa quer a qualidade da água quer o desenvolvimento de espécies piscícolas relevantes para o património gastronómico”.

A candidatura, que conta com a adesão de 20 municípios ribeirinhos de Portugal e Espanha, “é uma mais-valia” para o
Tejo, afirmou o dirigente, tendo acrescentado ser este “o maior rio da Península Ibérica, com uma vasta bacia hidrográfica,
o maior estuário e a maior reserva de água da Europa, para além de outras valências tanto naturais, de paisagem e de biodiversidade, comode património histórico e cultural”.

Segundo Paulo Constantino, porta voz de uma ONG que envolve 600 cidadãos, associações e autarquias, a candidatura à UNESCO envolve um conjunto de exigências e umtrabalho profundo de fundamentação que “deverá demorar alguns anos”, tendo considerado “determinante” que a candidatura seja única, “do Tejo no seu todo”, e contando com o envolvimento dos dois Estados, “que a
apoiem e dêem o seu aval”, para que seja aceite.

in "Jornal da Região - Almada", Edição n.º 210